* Trabalho publicado no livro Mídia e Deficiência, da Agência de Notícias
dos Direitos da Infância e da Fundação Banco do Brasil (Brasília, 2003, p.
160-165)
** Consultor de inclusão social e autor dos livros Inclusão: Construindo
uma Sociedade para Todos (5.ed., Rio de Janeiro: WVA, 2003) e Inclusão no
Lazer e Turismo: em busca da qualidade de vida (São Paulo, Áurea 2003).
E-mail: romeukf@uol.com.br
Usar
ou não usar termos técnicos corretamente não é uma mera questão
semântica ou sem importância, se desejamos falar ou escrever
construtivamente, numa perspectiva inclusiva, sobre qualquer assunto de cunho
humano. E a terminologia correta é especialmente importante quando abordamos
assuntos tradicionalmente eivados de preconceitos, estigmas e estereótipos,
como é o caso das deficiências que aproximadamente 10% da população
possuem. Os termos são considerados corretos em função de certos valores e
conceitos vigentes em cada sociedade e em cada época. Assim, eles passam a
ser incorretos quando esses valores e conceitos vão sendo substituídos por
outros, o que exige o uso de outras palavras. Estas outras palavras podem já
existir na língua falada e escrita, mas, neste caso, passam a ter novos
significados. Ou então são construídas especificamente para designar
conceitos novos. O maior problema decorrente do uso de termos incorretos
reside no fato de os conceitos obsoletos, as idéias equivocadas e as
informações inexatas serem inadvertidamente reforçados e perpetuados. Este
fato pode ser a causa da dificuldade ou excessiva demora com que o público
leigo e os profissionais mudam seus comportamentos, raciocínios e
conhecimentos em relação, por exemplo, à situação das pessoas com
deficiência. O mesmo fato também pode ser responsável pela resistência
contra a mudança de paradigmas como o que está acontecendo, por exemplo, na
mudança que vai da integração para a inclusão em todos os sistemas sociais
comuns. Trata-se, pois, de uma questão da maior importância em todos os
países. Existe uma literatura consideravelmente grande em várias línguas.
No Brasil, tem havido tentativas de levar ao público a terminologia correta
para uso na abordagem de assuntos de deficiência a fim de que desencorajemos
práticas discriminatórias e construamos uma verdadeira sociedade inclusiva.
A seguir, apresentamos várias expressões incorretas seguidas de comentários
e dos equivalentes termos corretos, frases corretas e grafias corretas, com o
objetivo de subsidiar o trabalho de estudantes de qualquer grau do sistema
educacional, pessoas com deficiência e familiares, profissionais de diversas
áreas (reabilitação, educação, mídia, esportes, lazer etc.), que
necessitam falar e escrever sobre assuntos de pessoas com deficiência no seu
dia-a-dia. Ouvimos e/ou lemos esses termos incorretos em livros, revistas,
jornais, programas de televisão e de rádio, apostilas, reuniões, palestras
e aulas. A enumeração de cada expressão incorreta servirá para direcionar
o leitor de uma expressão para outra quando os comentários forem os mesmos
para diferentes expressões (ou pertinentes entre si), evitando-se desta forma
a repetição dos comentários.
1.
adolescente normal Desejando referir-se a um adolescente (uma criança ou um
adulto) que não possua uma deficiência, muitas pessoas usam as expressões
adolescente normal, criança normal e adulto normal. Isto acontecia muito no
passado, quando a desinformação e o preconceito a respeito de pessoas com
deficiência eram de tamanha magnitude que a sociedade acreditava na
normalidade das pessoas sem deficiência. Esta crença fundamentava-se na
idéia de que era anormal a pessoa que tivesse uma deficiência. A
normalidade, em relação a pessoas, é um conceito questionável e
ultrapassado. TERMOS CORRETOS: adolescente (criança, adulto) sem deficiência
ou, ainda, adolescente (criança, adulto) não-deficiente.
2.
aleijado; defeituoso; incapacitado; inválido Estes termos eram utilizados com
freqüência até a década de 80. A partir de 1981, por influência do Ano
Internacional das Pessoas Deficientes, começa-se a escrever e falar pela
primeira vez a expressão pessoa deficiente. O acréscimo da palavra pessoa,
passando o vocábulo deficiente para a função de adjetivo, foi uma grande
novidade na época. No início, houve reações de surpresa e espanto diante
da palavra pessoa: "Puxa, os deficientes são pessoas!?" Aos poucos,
entrou em uso a expressão pessoa portadora de deficiência, freqüentemente
reduzida para portadores de deficiência. Por volta da metade da década de
90, entrou em uso a expressão pessoas com deficiência, que permanece até os
dias de hoje. Ver os itens 47 e 48.
3.
"apesar de deficiente, ele é um ótimo aluno" Na frase acima há um
preconceito embutido: 'A pessoa com deficiência não pode ser um ótimo
aluno'. FRASE CORRETA: "ele tem deficiência e é um ótimo aluno".
4.
"aquela criança não é inteligente" Todas as pessoas são
inteligentes, segundo a Teoria das Inteligências Múltiplas. Até o presente,
foi comprovada a existência de nove tipos de inteligência
(lógico-matemática, verbal-lingüística, interpessoal, intrapessoal,
musical, naturalista, corporal-cinestésica, visual-espacial e espiritual).
FRASE CORRETA: "aquela criança é menos desenvolvida na inteligência
[por ex.] lógico-matemática".
5.
cadeira de rodas elétrica Trata-se de uma cadeira de rodas equipada com um
motor. TERMO CORRETO: cadeira de rodas motorizada.
6.
ceguinho O diminutivo ceguinho denota que o cego não é tido como uma pessoa
completa. A rigor, diferencia-se entre deficiência visual parcial (baixa
visão ou visão subnormal) e cegueira (quando a deficiência visual é
total). TERMOS CORRETOS: cego; pessoa cega; pessoa com deficiência visual;
deficiente visual. Ver o item 59.
7.
classe normal TERMOS CORRETOS: classe comum; classe regular. No futuro, quando
todas as escolas se tornarem inclusivas, bastará o uso da palavra classe sem
adjetivá-la. Ver os itens 25 e 51.
8.
criança excepcional TERMO CORRETO: criança com deficiência intelectual.
Excepcionais foi o termo utilizado nas décadas de 50, 60 e 70 para designar
pessoas com deficiência intelectual. Com o surgimento de estudos e práticas
educacionais nas décadas de 80 e 90 a respeito de altas habilidades ou
talentos extraordinários, o termo excepcionais passou a referir-se tanto a
pessoas com inteligências múltiplas acima da média [pessoas superdotadas ou
com altas habilidades e gênios] quanto a pessoas com inteligência
lógico-matemática abaixo da média [pessoas com deficiência intelectual]
daí surgindo, respectivamente, os termos excepcionais positivos e
excepcionais negativos, de raríssimo uso.
9.
defeituoso físico Defeituoso, aleijado e inválido são palavras muito
antigas e eram utilizadas com freqüência até o final da década de 70. O
termo deficiente, quando usado como substantivo (por ex., o deficiente
físico), está caindo em desuso. TERMO CORRETO: pessoa com deficiência
física. Ver os itens 10 e 11.
10.
deficiências físicas (como nome genérico englobando todos os tipos de
deficiência). TERMO CORRETO: deficiências (como nome genérico, sem
especificar o tipo, mas referindo-se a todos os tipos). Alguns profissionais,
não-familiarizados com o campo da reabilitação, acreditam que as
deficiências físicas são divididas em motora, visual, auditiva e
intelectual. Para eles, deficientes físicos são todas as pessoas que têm
deficiência de qualquer tipo. Ver os itens 9 e 11.
11.
deficientes físicos (referindo-se a pessoas com qualquer tipo de
deficiência). TERMO CORRETO: pessoas com deficiência (sem especificar o tipo
de deficiência). Ver os itens 9 e 10.
12.
deficiência mental leve, moderada, severa, profunda TERMO CORRETO:
deficiência intelectual (sem especificar nível de comprometimento). A nova
classificação da deficiência intelectual, baseada no conceito publicado em
1992 pela Associação Americana de Deficiência Mental, considera a
deficiência intelectual não mais como um traço absoluto da pessoa que a tem
e sim como um atributo que interage com o seu meio ambiente físico e humano,
que por sua vez deve adaptar-se às necessidades especiais dessa pessoa,
provendo-lhe o apoio intermitente, limitado, extensivo ou permanente de que
ela necessita para funcionar em 10 áreas de habilidades adaptativas:
comunicação, autocuidado, habilidades sociais, vida familiar, uso
comunitário, autonomia, saúde e segurança, funcionalidade acadêmica, lazer
e trabalho. Ver os itens 35 e 50.
13.
deficiente mental (referindo-se à pessoa com transtorno mental) TERMOS
CORRETOS: pessoa com transtorno mental, paciente psiquiátrico.
14.
doente mental (referindo-se à pessoa com déficit intelectual) TERMO CORRETO:
pessoa com deficiência intelectual. O termo deficiente, quando usado como
substantivo (por ex.: o deficiente físico, o deficiente intelectual), tende a
desaparecer, exceto em títulos de matérias jornalísticas por motivo de
economia de espaço.
15.
"ela é cega mas mora sozinha" Na frase acima há um preconceito
embutido: 'Todo cego não é capaz de morar sozinho'. FRASE CORRETA: "ela
é cega e mora sozinha"
16.
"ela é retardada mental mas é uma atleta excepcional" Na frase
acima há um preconceito embutido: 'Toda pessoa com deficiência mental não
tem capacidade para ser atleta'. FRASE CORRETA: "ela tem deficiência
intelectual e se destaca como atleta"
17.
"ela é surda [ou cega] mas não é retardada mental" A frase acima
contém um preconceito: 'Todo surdo ou cego tem deficiência intelectual'.
Retardada mental, retardamento mental, retardo mental e deficiente mental são
termos do passado. FRASE CORRETA: "ela é surda [ou cega] e não tem
deficiência intelectual".
18.
"ela foi vítima de paralisia infantil" A poliomielite já ocorreu
nesta pessoa (por ex., 'ela teve pólio'). Enquanto a pessoa estiver viva, ela
tem seqüela de poliomielite. A palavra vítima provoca sentimento de piedade.
FRASES CORRETAS: "ela teve [flexão no passado] paralisia infantil"
e/ou "ela tem [flexão no presente] seqüela de paralisia infantil".
19.
"ela teve paralisia cerebral" (referindo-se a uma pessoa viva no
presente) A paralisa cerebral permanece com a pessoa por toda a vida. FRASE
CORRETA: "ela tem paralisia cerebral".
20.
"ele atravessou a fronteira da normalidade quando sofreu um acidente de
carro e ficou deficiente" A normalidade, em relação a pessoas, é um
conceito questionável. A palavra sofrer coloca a pessoa em situação de
vítima e, por isso, provoca sentimentos de piedade. FRASE CORRETA: "ele
teve um acidente de carro que o deixou com uma deficiência".
21.
"ela foi vítima da pólio" A palavra vítima provoca sentimento de
piedade. TERMOS CORRETOS: pólio, poliomielite e paralisia infantil. FRASE
CORRETA: "ela teve pólio"
22.
"ele é surdo-cego" GRAFIA CORRETA: "ele é surdocego".
Também podemos dizer ou escrever: "ele tem surdocegueira". Ver o
item 55.
23.
"ele manca com bengala nas axilas" FRASE CORRETA: "ele anda com
muletas axilares". No contexto coloquial, é correto o uso do termo
muletante para se referir a uma pessoa que anda apoiada em muletas.
24.
"ela sofre de paraplegia" [ou de paralisia cerebral ou de seqüela
de poliomielite] A palavra sofrer coloca a pessoa em situação de vítima e,
por isso, provoca sentimentos de piedade. FRASE CORRETA: "ela tem
paraplegia" [ou paralisia cerebral ou seqüela de poliomielite].
25.
escola normal No futuro, quando todas as escolas se tornarem inclusivas,
bastará o uso da palavra escola sem adjetivá-la. TERMOS CORRETOS: escola
comum; escola regular. Ver os itens 7 e 51.
26.
"esta família carrega a cruz de ter um filho deficiente" Nesta
frase há um estigma embutido: 'Filho deficiente é um peso morto para a
família'. FRASE CORRETA: "esta família tem um filho com
deficiência".
27.
"infelizmente, meu primeiro filho é deficiente; mas o segundo é
normal" A normalidade, em relação a pessoas, é um conceito
questionável, ultrapassado. E a palavra infelizmente reflete o que a mãe
pensa da deficiência do primeiro filho: 'uma coisa ruim'. FRASE CORRETA:
"tenho dois filhos: o primeiro tem deficiência e o segundo não
tem".
28.
intérprete do LIBRAS TERMO CORRETO: intérprete da Libras (ou de Libras).
GRAFIA CORRETA: Libras. Libras é sigla de Língua de Sinais Brasileira: Li =
Língua de Sinais, bras = Brasileira. "Libras é um termo consagrado pela
comunidade surda brasileira, e com o qual ela se identifica. Ele é consagrado
pela tradição e é extremamente querido por ela. A manutenção deste termo
indica nosso profundo respeito para com as tradições deste povo a quem
desejamos ajudar e promover, tanto por razões humanitárias quanto de
consciência social e cidadania. Entretanto, no índice lingüístico
internacional os idiomas naturais de todos os povos do planeta recebem uma
sigla de três letras como, por exemplo, ASL (American Sign Language). Então
será necessário chegar a uma outra sigla. Tal preocupação ainda não
parece ter chegado na esfera do Brasil", segundo CAPOVILLA (comunicação
pessoal). Ver os itens 31, 32 e 33.
29.
inválido (referindo-se a uma pessoa) A palavra inválido significa sem valor.
Assim eram consideradas as pessoas com deficiência desde a Antiguidade até o
final da Segunda Guerra Mundial. TERMO CORRETO: pessoa com deficiência.
30.
lepra; leproso; doente de lepra TERMOS CORRETOS: hanseníase; pessoa com
hanseníase; doente de hanseníase. Prefira o termo as pessoas com hanseníase
ao termo os hansenianos. A lei federal nº 9.010, de 29-3-95, proíbe a
utilização da palavra lepra e seus derivados, na linguagem empregada nos
documentos oficiais. Alguns dos termos derivados e suas respectivas versões
oficiais são: leprologia (hansenologia), leprologista (hansenologista),
leprosário ou leprocômio (hospital de dermatologia), lepra lepromatosa
(hanseníase virchoviana), lepra tuberculóide (hanseníase tuberculóide),
lepra dimorfa (hanseníase dimorfa), lepromina (antígeno de Mitsuda), lepra
indeterminada (hanseníase indeterminada). A palavra hanseníase deve ser
pronunciada com o h mudo [como em haras, haste, harpa]. Mas, pronuncia-se o
nome Hansen (do médico e botânico norueguês Armauer Gerhard Hansen) com o h
aspirado.
31.
LIBRAS - Linguagem Brasileira de Sinais GRAFIA CORRETA: Libras. TERMO CORRETO:
Língua de Sinais Brasileira. Trata-se de uma língua e não de uma linguagem.
Segundo CAPOVILLA [comunicação pessoal], "Língua de Sinais Brasileira
é preferível a Língua Brasileira de Sinais por uma série imensa de
razões. Uma das mais importantes é que Língua de Sinais é uma unidade, que
se refere a uma modalidade lingüística quiroarticulatória-visual e não
oroarticulatória-auditiva. Assim, há Língua de Sinais Brasileira. porque é
a língua de sinais desenvolvida e empregada pela comunidade surda brasileira.
Não existe uma Língua Brasileira, de sinais ou falada". Ver os itens
28, 32 e 33.
32.
língua dos sinais TERMO CORRETO: língua de sinais. Trata-se de uma língua
viva e, por isso, novos sinais sempre surgirão. A quantidade total de sinais
não pode ser definitiva. Ver os itens 28, 31 e 33.
33.
linguagem de sinais TERMO CORRETO: língua de sinais. A comunicação
sinalizada dos e com os surdos constitui um língua e não uma linguagem. Já
a comunicação por gestos, envolvendo ou não pessoas surdas, constitui uma
linguagem gestual. Uma outra aplicação do conceito de linguagem se refere ao
que as posturas e atitudes humanas comunicam não-verbalmente, conhecido como
a linguagem corporal. Ver os itens 28, 31 e 32.